sábado, 8 de outubro de 2011

Vergilio Correia e o Megalitismo Alentejano (1)





Circunstancias fortuitas, aunque felices, hicieram que yo escogiese Pavia como punto de partida de exploraciones. El acaso de una conversación con un amigo, la noticia de la existencia de una anta transformada en capilla, y la seguridad de que la región había sido poco explorada (...)”

Correia, 1921: 25



Vergílio Correia (1888-1944)

A arqueologia em Portugal no primeiro quartel do séc. XX, como seria de esperar, foi fortemente influenciada pelo clima de agitação política, social, económica e cultural traduzindo um exacerbamento dos nacionalismos, com um reflexo directo na "procura das origens". Nesta perspectiva, surgiu o conceito de raça e a ideia de que a nacionalidade era algo de biológico, (como se houvesse um tipo físico próprio de cada nação), ideia que se encontra patente em algumas das obras de Vergílio Correia Pinto da Fonseca.

Este investigador nasceu na Régua e veio a concluir o curso de Direito na Universidade de Coimbra (1906-1911), onde se doutorou em Letras, em 1935. Foi aí professor de História de Arte desde 1921, e de Arqueologia, desde 1923.

Foi conservador dos museus Etnológico Português e Nacional de Arte Antiga.

A sua obra, realizada principalmente no domínio da História da Arte e da Arqueologia é tematicamente muito diversificada, e foi publicada dispersamente. São, no geral, artigos de reduzidas dimensões, em que se refere factologicamente o achado de um determinado vestígio artístico ou arqueológico. A maior parte desses artigos, porém, são sobre Conimbriga e as suas escavações, às quais Vergílio Correia dedicou grande parte da sua vida, após ter saído do Museu Etnológico.

A sua ida para o concelho de Mora deveu-se, segundo ele, ao acaso "(.../...) una conversación con un amigo, la noticia de la existencia de un anta transformada en capilla, y la seguridad de que la región había sido poco explorada(.../...)" (Correia, 1921: 25).

A obra publicada em 1921, "El Neolitico de Pavia", constitui a sua única monografia, e reporta-se aos trabalhos realizados nesta área durante os meses de Abril e Maio de 1914 e 1915 e em 1918 " (.../...) realicé en la región la mayor y más completa exploración dolménica hecha hasta hoy en Portugal, habiendo continuado el trabajo con el mayor fruto en 1918. Cerca de ochenta dólmenes fueron cavados y estudiados en esas tres campañas." (Correia, 1921: 9-10). 

As inúmeras escavações realizadas e os vários trabalhos publicados, fazem deste autor um dos vultos mais representativos da mentalidade portuguesa da época, no campo da arqueologia. Os vários títulos académicos e as condecorações que lhe foram atribuídas representam, aliás, o reconhecimento oficial dos seus méritos.

Pertenceu à Academia Nacional de Belas-Artes, à Academia Portuguesa de História, ao Instituto Arqueológico Alemão, à Academia de História de Madrid, ao Instituto de Coimbra e à Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa. Foi oficial da Ordem de Santiago e possuía a Cruz Vermelha Alemã.

Colaborou igualmente na imprensa periódica: A Pátria, O Século, Diário de Notícias, etc. Desde 1938, dirigiu o Diário de Coimbra. Fundou e dirigiu as revistas Terra Portuguesa, de Lisboa e Arte e Arqueologia, de Coimbra.

Fez parte das comissões da Exposição de Sevilha, da Reforma das Belas Artes e do Trajo Popular, tendo participado ainda nos Congressos Luso-Espanhóis para o Progresso e Desenvolvimento das Ciências (Cádiz, Salamanca, Lisboa e Barcelona), Internacionais de Arqueologia (Barcelona e Alger), do Mundo Português, etc.

A inexistência de um edifício teórico suficientemente definido que permitisse a colocação de questões pré-estabelecidas de forma sistemática, levou alguns autores a considerem a sua obra como o início da decadência da arqueologia portuguesa, não só a nível teórico, como prático. É um facto que Vergílio Correia não manteve profundos contactos com o estrangeiro, nem desenvolveu grandes progressos científicos, ao contrário dos seus antecessores dos finais do séc. XIX. Contudo, e de acordo com Joaquim Carvalho, Vergílio Correia, pela sua " (...) índole e pela sua conformação mental (...) sempre preferiu a robustez dos factos densamente exactos e afectuosamente simples à dialéctica das ideias gerais e às distinções subtis da argúcia (...)". O mesmo autor acrescenta ainda "(...) o íntimo contacto com a realidade, ou, por outras palavras, o abandono do livro pela observação e inquérito pessoal dos factos, fez de Vergílio Correia o mestre consumado na exploração arqueológica (...)" (CARVALHO, 1946:6,9), realçando assim o facto do autor dar maior importância aos factos em si, em deterimento das leituras em que se poderiam integrar.

Esta ausência de uma predisposição crítica teoricamente fundamentada, acerca das realidades com que lida poder-se-á dever às teorias historiográficas vigentes, nomeadamente a tendência positivista.